Utilidade Pública Municipal 69/99 - Ano II - No. 3 - Abril de 2000

A Caminhar e você


Em apenas três anos de fundação, a Caminhar nunca esteve tão próxima de você.
Nossa equipe tem trabalhado com afinco para que cada vez mais pessoas possam conhecê-la e, também , usufruir de seus serviços.
Não poderia deixar de apontar o grande sucesso que foi a nossa II Jornada Caminhar, realizada nos dias 06 e 07/04/2000, no Teatro Municipal, onde contamos novamente com a colaboração do MAGAZINE LUIZA e da GRÁFICA TUPY.
Enalteceram nossa Jornada grandes nomes, tais como o da Dra. Maria Valeriana Leme De Moura Ribeiro, Neurologista Infantil da UNICAMP, que nos emprestou seus conhecimentos sobre a paralisia cerebral; Stella Silva Querido, fonoaudióloga pela PUC/CAMPINAS, pós-graduada em Patologia da Comunicação pela USC e especializada em Paralisia Cerebral pela UNESP/ARARAQUARA, e Suely Harumi Satow, Dra. em Psicologia Social pela PUC/SP e autora do livro "Paralisado Cerebral: construção da identidade na exclusão", Conselheira Consultiva do DEFNET e membro fundadora do CEDIPOD, e portadora de paralisia cerebral tipo atetóide. Estas duas últimas falaram sobre a inserção do computador na vida do paralisado cerebral.
No segundo dia deste ciclo de palestras, compôs-se uma mesa redonda com os portadores de deficiência Moacir Silveira, Suely Harumi Satow, Fernando Osório da Silva, e José Donizete Avelar, que nos contaram um pouquinho de sua história de vida e nos brindaram com sua emotividade, bom humor e crítica real e séria ao preconceito e dificuldades sociais por eles enfrentadas.
Outro ponto chave foi o pronunciamento do Exmo. Sr. Cassiano Pimentel, vice prefeito de Franca, que prestou grande contribuição ao decorrer sobre a importância do terceiro setor na sociedade brasileira de hoje.
Momentos, também, de extremo prazer, ocorreram na apresentação do coral da Universidade de Franca, regido por Fátima Calixto e na apresentação de ballet, realizada pelas alunas do Studio Gisella de Dança.
Foi maravilhoso e gratificante ver o Teatro Municipal lotado.
Através desta Jornada, mais e mais pessoas estão conhecendo nossa associação e a paralisia cerebral, assim como estão estreitando o contato com o mundo real de seus portadores.
Nosso site na Internet também tem feito sucesso, pois já recebemos vários
E mails e, inclusive, estamos publicando um depoimento - História de Vida - recebido pelo correio eletrônico.
Quanta satisfação! Nosso jornal já passa a ser construído por mais pessoas, diferentes daquelas que atuam diretamente na Caminhar. E existe um espaço aberto para muito mais pessoas, inclusive, você.
Venha caminhar conosco!

Valéria Vanini
Psicóloga
Apesar do nome Paralisia Cerebral o que o indivíduo tem menos paralisado é o cérebro e a incapacidade para não falar não significa que ele não tem nada a dizer, ele poderá ter muito a nos contar.
Paralisia Cerebral (PC) é um termo usado para descrever um grupo de disfunções que afetam os movimentos e a coordenação motora. A definição médica de PC é uma desordem de movimentos e/ou postural não progressiva, causada por um acidente ou anomalia do cérebro em desenvolvimento. Ela também não é hereditária e não é contagiosa.
O desenvolvimento cerebral de uma criança inicia-se no útero da mãe e continua até por volta de 3 anos de idade. O dano cerebral que ocorre nesse tempo pode resultar em paralisia cerebral. Este prejuízo interfere nas mensagens do cérebro ao corpo e do corpo ao cérebro.
Os efeitos da paralisia cerebral variam muito de pessoa para pessoa. Na sua forma mais leve a paralisia cerebral pode resultar em movimentos desajeitados ou em controle deficiente dos braços e mãos. Na sua forma mais severa, a paralisia cerebral pode resultar em falta de vigor no controle muscular afetando em alguns casos os movimentos da fala.
Dependendo de quais áreas do cérebro foram afetadas, um ou mais destes casos podem ocorrer rigidez ou espasmo muscular - movimentos involuntários, com muita ou pouca dificuldade para andar ou correr, dificuldade ou debilidade com a habilidade para escrever e falar, e muitas vezes com percepções e sensações alterados.
O dano cerebral que causou a paralisia cerebral pode também ser acompanhado de outras decorrências: convulsão e déficit intelectual. É importante lembrar que, apenas algumas pessoas com paralisia cerebral não conseguem articular bem a fala, outras vezes nem a conseguem, mas não significa que elas não terão nada para contar. O grau de deficiência ou debilidade física da pessoa com paralisia cerebral não tem nada a ver com o grau de sua capacidade intelectual.
A paralisia cerebral não é uma disfunção progressiva - o dano cerebral acontece uma vez, e portanto não piora. E a pessoa portadora tem uma expectativa natural de vida. Por outro lado esta disfunção não esta sendo progressiva, os seus efeitos poderão mudar com o tempo. Alguns poderão ser minimizados e outros poderão reforçar o padrão da paralisia cerebral. Afinal tudo é uma questão de oferecer menos ou mais oportunidades.

Elisabeth da Silva Félix

SANTA CASA DE FRANCA E A
PARALISIA CEREBRAL


A maternidade da Santa Casa de Franca é a única instituição que atende o paciente do SUS (Sistema Único de Saúde) de Franca e Região. Acontecem, em média, 350 partos/mês.
A maternidade conta com centro obstétrico (4 salas), isolado e independente do centro cirúrgico geral, onde só acontecem partos e cesarianas.
O centro obstétrico comunica-se internamente com a sala de pré - parto (8 leitos), com o berçário e CTI infantil, permitindo a circulação de pacientes, recém-nascidos e equipe de trabalho, de forma adequada e sem riscos de contaminação.
Durante o dia, dois médicos ginecologistas e obstetras fazem plantão permanente e, à noite, um, que oferece pronto atendimento e assistência imediata a todos os casos que são encaminhados das Unidades Básicas de Saúde, pronto-socorro e cidades vizinhas e ainda pacientes que procuram espontaneamente a Santa Casa.
Todos os recém-nascidos são recebidos e examinados pelo pediatra, presente na sala de parto, ao nascimento.
Contamos com plantão permanente do anestesiologista, para todos os casos que exigirem anestesia.
A equipe de enfermagem é treinada especificamente para lidar com a gestante e puérpera, e o fazem com atendimento diferenciado e humanizado.
Pratica-se o alojamento conjunto - o recém-nascido permanece, sempre que as condições da mãe e filho permitirem, ao lado da mãe, ficando disponível para mamar, sendo examinado pelo pediatra ao lado da mãe, com orientação, sempre. Sua higiene e troca de fraldas é feita pela enfermeira, também ao seu lado, ensinando e permitindo a sua prática ainda na maternidade.
Realiza-se um trabalho de estímulo ao aleitamento materno, com enfermeira especializada, reuniões em grupo e orientação individual .
Todos os recém-nascidos se submetem ao exame para detectar "sífilis congênita", e são encaminhados para o "Teste do Pezinho".
Todas as mães são orientadas para fazerem a consulta de Revisão de Parto, em 40 dias, e se orientarem quanto à métodos anticoncepcionais e planejamento familiar.
Oferece-se à gestante e à família o atendimento humanizado, procurando amenizar a dor, esclarecer dúvidas, reduzir a ansiedade e o medo que envolvem o nascimento de um filho, desfazer tabus e crendices, ainda hoje tão freqüentes.
Por todas essas características, a maternidade da Santa Casa de Franca foi classificada com nível "B" no Projeto "Maternidade Segura" e, junto com ela, nesse nível, somente oito (8) maternidades no Estado de São Paulo, sendo três (3) delas em Hospitais Universitários. Reconhece-se ainda muitos pontos em que pode-se melhorar mais, sempre visando a melhor assistência, e a redução dos índices de mortalidade e morbidade maternos fetais e neonatais.

Dra. Ana Lúcia de Castro Rodrigues

Ginecologista Responsável pelos Programas
de Saúde da Mulher e Membro da Coordenadoria
Materno Infantil da Secretaria Municipal de Saúde
Lei n.º 7853 de 24 outubro de 1989
Decreto n.º 914/93


Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para Integração de Pessoas Portadoras de Deficiência (CORDE), institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes e dá outras providências."

... RESPONSABILIDADES DO PODER PÚBLICO

Artigo 2 - Ao Poder Público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à previdência social, ao amparo à infância e à maternidade, e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico.

Parágrafo único - Para o fim estabelecido no "caput" deste artigo, os órgãos e entidades da administração direta e indireta devem dispensar, no âmbito de sua competência e finalidade, aos assuntos objeto desta Lei, tratamento prioritário e adequado, tendente a viabilizar, sem prejuízo de outras, as seguintes medidas:

I - Na área da Educação:
a) a inclusão, no sistema educacional, da Educação Especial como modalidade educativa que abranja a educação precoce, a pré-escolar, as de 1º e 2º graus, a supletiva, a habilitação e reabilitação profissionais, com currículos, etapas e exigências de diplomação próprios;

b) a inserção, no referido sistema educacional, das escolas especiais, privadas e públicas;

c) a oferta obrigatória e gratuita, da Educação Especial em estabelecimentos públicos de ensino;

d) o oferecimento obrigatório de programas de Educação Especial a nível pré-escolar, em unidades hospitalares e congêneres nas quais estejam internados, por prazo igual ou superior a 1 (um) ano, educandos portadores de deficiência;

e) o acesso de alunos portadores de deficiência aos benefícios conferidos aos demais educandos, inclusive material escolar, merenda escolar, e bolsas de estudo;

f) Matrícula compulsória em cursos regulares de estabelecimentos públicos e particulares de pessoas portadoras de deficiência capazes de se integrar no sistema regular de ensino. ...
  Através de nossa página na Internet, temos realizado contatos muito interessantes.

Pessoas de diferentes parte do país nos enviam e mails para oferecer ajuda, pedir orientações, encaminhar protestos ou palavras de apoio.

E no meio de todo esse material recebemos um, particularmente interessante, o qual segue abaixo, na íntegra:
História de vida

"Sou Amauri Nolasco Sanches Jr., tenho 24 anos e tenho paralisia cerebral.
Sou filho de Itália Mollo Nolasco e Amauri Nolasco Sanches e tenho dois irmãos Reinaldo e Andréa Nolasco Sanches.
Tudo começou com meu nascimento. Por eu ser gordinho faltou oxigênio, aí fiquei assim. Quando tive dois ou um ano e meio, tive caxumba e uma febre de quarenta graus, tive convulsão e diz minha mãe, piorei. Até aos cinco anos de idade fiz tratamento no SESI, mas mãe é uma coisa muito sagrada e procurando outro local para meu tratamento encontrou a A.A.C.D.
Fiz tratamento durante um ano, mas chegou minha idade de escola e entrei na unidade Rodrigues Alves que ficava na Av. Paulista; lá tive a educação básica.
Além dessa educação básica tive meu primeiro amor e muitos outros, mas na minha adolescência foi uma experiência muito gratificante. Fiquei sete anos lá, pois as professoras me repetiam para eu ter um tratamento completo, nessa fiquei três, quatro anos na quarta serie; isso foi entre 1983 e 1990.
Em 1991 fiquei parado sem nenhum local para ir, vendi doces na garagem da minha casa, mas não deu muito certo. Fiquei em casa parado somente vendo televisão e ouvindo radio, uma amiga que ia à unidade da Mooca me indicou-a; fiz a avaliação de comportamento e trabalho então passei.
Entrei e estou até hoje, isso faz oito anos, nesse tempo cresci interiormente. Amadureci, pois diante dos sofrimentos de amores perdidos e injustiças feitas a mim fiquei forte; encontrei minha real vocação, no começo era literário, mas encontrei na filosofia minha real estadia.
Estou escrevendo um livro existencialista chamado "Razão do ser", onde abordo toda a humanidade e seus problemas.
Tenho uma família ótima, tenho uma linda namorada e muitos companheiros de luta, pertenço a uma fraternidade chamada FCD (fraternidade cristã de doentes e deficientes), onde lutamos para a inclusão do deficiente na sociedade. Ensinando e avaliando cada um com o maior companheirismo, a direção é completamente nossa, pois o coordenador e os adjuntos são deficientes físicos.
Agora minha luta é pela minha namorada, pois sua família não aceita muito nosso namoro.
Ela se chama Vera, minha companheira que me dá força para minha carreira de escritor filosófico deslanchar; mas a família esta usando a morte do pai dela como desculpa para a gente não namorar, no fundo eu não ligo, pois lutarei até o fim para nós e nossas cadeiras de rodas ficarem juntos.
Minha experiência é pouca, mas espero passar algo para as pessoas que lêem essa modesta experiência."

Amauri Nolasco Sanches Jr. (sic)
Precisamos de você !!